segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sobre o Amigo

                    Adolescentes parecem não ter medo de nada. Não têm medo da velocidade, guiam carros e motos como loucos, na certeza de que são invulneráveis. Não têm medo das drogas, experimentam de tudo, na firme certeza de que nenhum mal poderá lhes suceder. [...] Parece, inclusive, que não têm  medo de morrer. Loucões.
                    Mas adolescentes têm um medo medonho da solidão. Não conseguem ficar sozinhos, com eles mesmos. A solidão os deprime. Por isso não desgrudam do telefone. Por isso estão sempre em grupos. Mas essa sociabilidade de que é feito o grupo é o oposto da amizade. Porque ela é feita de igualdades. Todos têm de ser iguais e quem é diferente está fora, não pertence. Não é convidado. Fica em casa.
                    A amizade é o oposto. Ela começa quando a gente não pertence a grupo algum. A amizade é o encontro de duas solidões. Duas solidões, juntas, fazem uma comunhão. [...]
                    Sei que vocês têm tristezas. É para espantar a tristeza que vocês fazem tanta festa, ouvem música tão alto, procuram sempre o agito [...]. É preciso espantar o medo de ficar adulto. Ficar adulto é se encontrar com a solidão, quando não se pode mais gritar: "Mãe, me pega no colo!", "Pai, me tira do buraco!". Aí se entende que a tristeza é parte da vida, e não é para ser curada com remédios de psiquiatras. A tristeza é para a gente ficar amigo dela. Quem faz amizade com a tristeza fica bonito, fica manso, fala baixo, escuta, pensa. [...]
                    Amigos são raríssimos. ("Eu quero ter um milhão de amigos": o Roberto Carlos estava louco quando escreveu isso. Amizade requer tempo. Como posso ter tempo para um milhão? Deveria reescrever a canção: "Quero ter um milhão de fãs".) Não importa. Basta um amigo para encher a solidão de alegria.

                                                      Rubem Alves, E aí? - Carta aos adolescentes a seus pais. p. 58-60.

PS: Esse texto caiu na minha prova de português, eu li e reli muitas vezes, porque eu gostei bastante e queria compartilhar ele com vocês. 
                                                                                        Beijos, Amy.

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